Do EGO para o ECO!

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Parece que ainda escuto o meu amigo falando sobre os projetos esportivos para resgatar os valores humanos entre os jovens. Ele pensava na disciplina do esporte como o exercício da liberdade de fazer aquilo que se escolheu fazer a partir do senso de pertencimento para transformar a realidade dos jovens a partir de conexões saudáveis.

Era o ano de 2010 na cidade de Pelotas e eu conversava com Oguener Tissot, que sonhava em transformar a cidade num polo de remo olímpico no Brasil. Existia um clube de remo na cidade com poucos sócios e participação menor ainda.  Mesmo assim, o meu amigo começou um projeto chamado Remar para o Futuro. Recebia algum apoio privado e público, embora enfrentasse a resistência de muitos que criticavam as suas inciativas.

Em 2013 ele começou uma escola de remo associada ao Clube Centro Português e alguns anos depois ele havia transformado o sonho em realidade. Passou a ser referência nacional na prática do Remo Olímpico como esporte de alto rendimento, sendo considerado um dos melhores técnicos do esporte no país, além de ser o principal criador de novos talentos. Muitos dos jovens de Pelotas passaram a integrar os grandes clubes de remo do Brasil, além da seleção brasileira. Outros tantos usaram os valores do remo para transformar dificuldades em oportunidades pelas novas conexões estabelecidas. Os jovens haviam desenvolvido o sentido de pertencimento a algo maior do que eles.

Entretanto, a vida nos reserva surpresas. No dia 20 de outubro de 2024 a jornada do meu amigo (e sua equipe) terminou aos 43 anos de forma trágica num acidente de repercussão nacional. Pergunto:

– Qual foi o ECO deixado pelo meu amigo?

Ecoam nas pessoas o trabalho, a jornada, as iniciativas, os movimentos, a dedicação, o esforço, a luta, o amor e a presença, sentida na sua ausência, a partir das obras realizadas e dos projetos que vão seguir.

Por que tantos ECOS? Porque o meu amigo soube migrar do EGO para o ECO. Ocupou-se de si com a consciência de que o reflexo seria positivo para os outros. Ainda que pudesse ter trabalhado em projetos economicamente mais lucrativos, ele escolheu trilhar o caminho da vocação numa nítida transição do individual para o coletivo que garantem mais ECO do que exaltam o EGO.

Tive o privilégio de acompanhar o trabalho realizado na Escola de Remo Tissot, que ultrapassou as fronteiras da cidade e do país. O ECOS deixados pelo meu amigo se constituem num dos mais belos exemplos de empreendedorismo em que o lucro foi gigantesco para todos os envolvidos. O meu amigo viveu o seu sonho? Viveu o sonho e viveu do seu sonho, porque o sustento da sua vida vinha da atividade que realizava. Ele fazia o que gostava? Sim, assim como se esforçava para fazer aquilo que deveria ser feito.

Enfim, onde estão os ECOS do meu amigo que já não está mais conosco? Eles estão por todos os lados, porque na sua atividade ele se ocupava da integralidade dos jovens que com ele treinavam. Ele estimulava o desempenho físico e mental por meio das atividades do remo e da frequência escolar, além de ter presente a dimensão espiritual em que somos parte de algo maior do que nós mesmos. Com isso, fazia nascer dentro de cada um dos seus alunos o sentido de pertencimento à equipe, ao clube, ao esporte, à comunidade, ao país e à humanidade. Desse modo, o meu amigo deixou ECOS de pertencimento a partir de pessoas integrais que entenderam a relação de interdependência entre os indivíduos. São o ECOS das conexões que mantém uma organização ou um sonho vivo, ainda que o seu idealizador já não esteja aqui.

Finalmente, ao migrar do Ego para o Eco Oguener Tissot deixa Ecos de amor, de compromisso, de luta, de fé e de amizade naturais em quem transformou o mundo a sua volta com a força do pertencimento, resultado das conexões humanas.

Moacir Rauber

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